Silêncio, precisa-se!
Nem parece terça-feira pós dia de S. Valentim, um sol bonito, vento fraco a soprar do mar, quer dizer, acho que era do mar que vinha, quando desci a rua 19 de scooter elétrica, não daquelas que são abandonadas em qualquer lado, mas a que apareceu no Natal, cá em casa, em 2020. Passados estes meses, conto já com quase trezentos quilómetros de asfalto, vive-se a cidade e (por onde passamos) com mais tranquilidade, e a velocidade (de origem) para aquele modelo é de 20km/h.
A manhã acordou estranha, com a aproximação à casa dos senhores que há quase uma semana estão nos telhados a resolver as infiltrações, o Zuky começou a dar sinal, bem antes do meu despertador. Assim, de repente, da minha alma surgiram as primeiras palavras do dia - que, podem bem pensar - não foram muito bonitas. O mesmo processo de sempre, descer as escadas de roupão, um café espanhol com leite português num copo italiano. Nespresso, what else? Cada vez tenho menos paciência para o barulho, a começar pelo que vem da rua e dos eternos Fangio´s do asfalto, por acaso, já não tenho memória de um estouro aqui no cruzamento. Tomado o pequeno-almoço à pressa para fugir, vem-me ao pensamento a necessidade / vontade que teria (no momento) em ter uns auscultadores com cancelamento de ruído, onde pudesse fechar os olhos na confusão e ouvisse Keith Jarrett como se ele estivesse mesmo ali.
Vesti a roupa à pressa, desci as escadas, onde o meu cão - pressentindo-me - vem ao meu encontro com a cauda a abanar, como se soubesse que haveria um passeio. Já se habituou ao facto de ter de esperar por vezes alguns minutos para fazer umas fotos, só quer é estar perto de mim e de preferência, no arejo. Gosto da luz da manhã e dos desenhos que as nuvens fazem no céu. Para me tentar abstrair do que me rodeia, ligo a música, que me chega da Cloud, com Keith Jarrett a viajar "O cravo bem temperado" de J.S. Bach. Sempre que ouço este álbum, vem-me à memória João Carlos Martins, o maestro brasileiro que se reinventou ao longo do tempo. Aos dezoito anos conseguia fazer vinte e uma notas por segundo. Derivado a problemas de saúde, viu-se obrigado a vinte e quatro cirurgias às mãos, e recentemente voltou ao piano (mais lento) com a ajuda de mãos biónicas. Numa entrevista que merece ser vista - não só por quem gosta de música (de verdade) - disse "Com dezoito anos, fazia vinte e uma notas por segundo. Agora a cada vinte e um segundos faço uma nota, mas a paixão é a mesma".
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