Um
A televisão ligada, o som quase em surdina, um cão há oito meses resgatado, dorme num sofá cama, sossegado. Um zapping clássico para ganhar sono, um filme - não sei bem já em que canal - "Ele e ela", ela sozinha a escrever num blogue, ele, no outro lado da cidade deitado num sofá comprido a olhar os papéis. A mãe dela liga-lhe preocupada, com a profundeza do pensamento partilhado. Sai de casa e vai às compras, dizendo:
- Ele saiu, foi buscar uma pizza.
Eu também, mas ela não sabe, e pouca gente o sabia. A minha mãe, o meu mural de facebook e a minha nutricionista. Escrevo-lhe, embora ela não saiba que me é fonte de inspiração para erros gastronómicos. É bonita, tem um cabelo loiro (como eu já tive, quando era criança), maior é certo, olhos azuis, eu fiquei pelos castanhos, segundo uma canção, de encantos tamanhos. Uns olhos que me deixam ver o mundo através da lente, mais ou menos correctamente.
Olho o calendário, amanhã acordo cedo, tenho um trabalho diferente. Sou tudo, embora não o seja como queira, sou fotógrafo, sim! Podia ser cem vezes melhor, mas isso levar-me-ia a fazer outra coisa qualquer. Escritor? Sim, talvez seja, pelos livros que já li e tendo a comprar, ou porque me inspira pelo título, ou pela capa, ou pelo autor. Vou agora divagando entre biografias, sabendo - mesmo sem que isso seja relevante para a minha felicidade - de louros e podres dos que vou vendo na televisão.
Hoje, ou antes, ontem, morreu uma cantora brasileira. Não sabia, mas tinha um filho pequeno, dois anos. A vida é uma porcaria, escrevi um e-mail à Associação da Sara Carreira. Eles, têm agora "sementes do futuro", prometem e cumprirão o sonho de tantos que como eu olham para a música, para as canções, para o talento como algo positivo. "... Nunca serás ninguém, não és A, B, C. És apenas mais uma pessoa entre tantas que teve um "talento" para escrever. Gostava que o mundo se visse como eu o vejo.
Não sei qual o alcance de mais um blogue na net, mas fica a promessa de que tudo o que for aqui escrito / dito virá de um singelo coração que bate, e baterá até terminar a sua função. José Régio escrevera - lá atrás no tempo - "se vim ao mundo, foi só para desflorar florestas...". Tentarei ao máximo fotografá-las, respirá-las, vivenciá-las. Assim, quando for, fica a certeza de ter vivido feliz, por muito que isso se reflita em pizzas ao final de uma noite, um filme lamechas, um computador já velhinho e um jovem a caminho de uma bonita idade a escrever numa cave.
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