A três dias de um grande amor

Já se nota a azáfama de rapazes, raparigas, maridos e "maridas" a aplicarem poupanças (quiçá) de um mês para surpreender a cara metade. Muitos/as, até aproveitam o dia quatorze - S. Valentim - para ficar a conhecer melhor a pessoa com quem dividem o tempo extra que o trabalho e as obrigações disponibiliza. O dia terá sempre vinte e quatro horas, os anos trezentos e sessenta e cinco dias (excepto nos bi-sextos) para provar que de facto existe "mais o que os une, do que os separa". 

A biblioteca mundial está carregada de frases feitas, bonitas (por sinal), de cartas com resposta à altura, de propostas para ir desvendar o mundo de chinelos, uma mochila e uma câmara fotográfica. 

- Vamos, aproveitamos e escrevemos um blog. Com sorte, dão-nos alojamento, alimentação, gadgets de borla e depois fazemos um canal de Youtube onde partilharemos tudo o que fazemos ao longo do dia, sempre, com um sorriso no rosto. 

Por muito que esse sorriso seja fake ou forçado - como no casamento daquela prima que só conhecemos no dia da boda - o mundo só quer saber de coisas bonitas, de uma jóia comprada à pressa na loja do shopping, e mesmo aí, ele escreve-lhe uma mensagem à pressa "Querida, estou um pouco atrasado. Ainda tenho reunião por Zoom com o meu boss que está num resort maravilhoso. Um dia destes, chega a nossa vez. Beijinho, gosto de ti como quem gosta de um sábado...". 

Por sua vez, ela, deitada que nem Inês na Quinta das Lágrimas, fingindo-se "morta" enquanto a pequenada briga para saber quem é a vez de quem desbravar terrenos no Fortnite na Playstation, idealiza a chamada para a mãe ou sogra para ficar com os pequenos. A mãe, como sempre, benemérita diz que sim, e que aproveitem a noite para namorar, etc. Ela fica com os miúdos, o avô adora tê-los por lá. O avô, por sua vez (pai da rapariga acima descrita) incendeia um charuto e coloca os auscultadores com cancelamento de ruído que mandou vir da Amazon. 

Como a casa está repleta de brinquedos, há pais, maridos, "maridas", namorados e em uniões de facto, que só quando aconteceu a quarentena perceberam que em casa tinham tanta coisa, e até temas de conversa. Quando a música ao vivo fazia parte do meu quotidiano, cheguei a ganhar umas coroas e uns jantares à pala. Ali, do alto do pedestal - que às vezes era o banco que levava de casa - via chegar os casais, uns a sorrir de orelha a orelha (dava-lhes aí um mês e dois dias de namoro), outros sempre a olhar para a porta a ver se a desgraçada da outra não aparecia e armava um escabeche, outros - que pela idade avançada - eram testemunhas de um amor perfeito, daqueles que duram há uma eternidade. 

Recordo-me bem de um momento em que um senhor do restaurante assistia deliciado à "discussão" de quem pagaria a conta. Ela, queria pagar porque tinha ganho um prémio na empresa, ele, porque tinha recebido a indemnização. Jantaram, não levantaram a voz uma única vez, e quem ofereceu o jantar foi o senhor do restaurante. Nunca mais os vi, nem sei se eram da cidade onde eu morava. 

A três dias de um - grande amor - Portugal poderia ter acordado às 13h com uma notícia de um massacre numa Universidade. A esses mesmos três dias, Joe Biden pede a todos os americanos que não voem para a Ucrânia nem para a BieloRússia, nem sequer para o império de Putin. A três dias, pode haver o começo de uma nova guerra. Que seja como a de Pedro e Inês: a morrer, que seja por amor!      

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