Como se diz amor em língua estrangeira - Love in Translation -
Aquela que seria uma segunda-feira normal, começou por não ser. O patudo acordou antes do meu despertador, quando os senhores do zinco chegaram. Desci as escadas de roupão, cara ensonada, com fome e vontade de beber sossegado o meu galão, com café espanhol e leite português, é só carregar em dois botões... Acredito que o dia 14 de Fevereiro pode ser encantador, inundado de amor. Mas já pararam uns minutos para pensar nas pessoas que tentam fazer scroll desenfreado nas redes porque todos se apaixonam menos eles/as?
Se no dia de Natal, invariavelmente levamos com "Sozinho em casa", no dia de S. Valentim levamos com séries e filmes excessivamente românticos, as livrarias fazem publicações de "Leve um, pague dois livros de amor e dor de corno". Se ele/ela vai sozinho comprar o último romance da Danielle Steel, a menina da caixa - invariavelmente, casada e feliz - pergunta "é para embrulhar?" Não! É para consumo próprio, como se o livro fosse assim uma espécie de coisa virada para o romântico. Os títulos refletem bem a época do ano, as lojas de flores inundam-se de pedidos de rosas vermelhas, um cartão escrito à pressa pela funcionária - que todos os dias recebe flores do marido, menos no dia quatorze - antes uma carta com um convite para jantar no restaurante mais caro e fashion da cidade.
Passam poucos minutos das onze horas, já tomei o pequeno-almoço, já levei o cão a dar o primeiro passeio higiénico, já ouvi os senhores da obra discutir coisas que não percebo (porque estão longe) e faço um zapping pelos canais genéricos e de notícias, onde, invariavelmente, Putin e o senhor da Ucrânia são os mais falados. Ontem, era só sr. Frederico, Eng.º Luís Gonçalves, Rui Cerqueira, grunhos do norte, virgens ofendidas da capital, santos de Alvalade, etc. Hoje, quem leva a melhor - e bem - é o sentimento que invade redes, publicidades, etc. Paro - por mero acaso - num canal de séries e filmes "Fox Life" e desperta-me a curiosidade para um "Love in Translation", onde nele é explícito que as relações à distância são giras mas funcionam, um currículo cheio de páginas não garante um emprego, e que SIM - uma simples fatia de pizza e um café são diferentes num cenário como Nova Iorque.
Rui Veloso, nas palavras imortais de Carlos Tê, canta em "Paixão, segundo Nicolau da Viola" ... "Não se ama alguém que não ouve a mesma canção..." por muito que queiramos empenhar o anel ou o livrete do carro para a levar a uma cidade como Paris, a coisa sairá cara, e as lágrimas que possam cair ao ouvir aquela canção que os "uniria para sempre" passará a ser a canção mais estúpida à face da terra. No filme "Love in Translation", ela é perfeita, mas não tem emprego nem sorte nas coisas do Valentim, até que conhece um jovem talentoso que trabalha no Museu de História Natural. Uma cena a ver novamente, até por uma frase que ressalva em todas as coisas do amor:
"Falar outra língua é possuir uma outra alma...".
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