Um retrato sereno, uma orquestra, uma memória
Gostava que estivessem aqui, de qualquer uma das formas, on-line, presencialmente - isso sim, seria especial. Jantar saboreado, cozinha arrumada, um passeio em véspera de madrugada. Uma conversa telefónica com um amigo, a cidade a adormecer aos poucos. Chegados a casa, o cão é o primeiro a adormecer, mas antes, termina os grãos que deixa sempre para depois do passeio. Hoje, apetecia-me ouvir uma coisa diferente, de ler algo diferente, e que me fizessem um retrato sereno, despercebido, natural. Morro de inveja de quem fica bem ao primeiro clique. Há dias dizia ao Pedro que faz o favor de me acompanhar em serviços fotográficos que precisava de uma fotografia de perfil com o meu chapéu, um olhar sereno e um charuto aceso, com a sua nuvem a fazer-me companhia.
Nunca mais me esqueço, e até me embarga a voz, da memória física do António, grande amigo, gigante músico e um apreciador de charutos. Pouco tempo antes de partir e já depois de vários convites, passei lá por casa no último dia do ano. A caixa perdurará na minha existência, já o seu conteúdo vai sendo apreciado. Como qualquer outro tipo de vício, é saudável se não for em excesso. Recordo-me bem quando me entregou a caixa, disse:
- Quando estiveres a fumar, não te esqueças do velhote.
De muito que aprendi sobre música, o António fez-me uma lista de álbuns a ouvir, e eu, invariavelmente quando oiço Procol Harum é como se o visse aqui, e pudéssemos desbravar ao piano. Como digo tantas e tantas vezes: é dos que faz falta, e merecia por cá andar. Conhecedor de música, apreciador das coisas bonitas da vida, recordo-me do seu aceno e sorriso da varanda da casa da rua 23 na procissão da Sra. da Ajuda, no dia do funeral do meu tio Rui.
Tenho amigos que - como diria Zé Pedro - me fazem bem à vida. Há pouco, quando liguei a aplicação de música apeteceu-me viajar num auditório qualquer do mundo. Maria João Pires e Orquestra Sinfónica de Londres fazem-me companhia, enquanto finto as estrelas.
Um Abraço
Comments
Post a Comment