Um café à volta dos livros em dia de aniversário. Parabéns Eugénio de Andrade!
Não podemos deixar assim alguém tão especial à espera. Sugeri que me indicasse data e hora. Escolhera, do outro lado da linha numa secretária atafulhada em papéis e poemas: dia dezanove, às onze no primeiro banco do Jardim de S. Lázaro. Chego antes, deixo o carro no parque levando comigo um bloco, uma caneta e um manuscrito. Terá Eugénio vontade de me ler?
Tento, no meio da neblina que faz companhia ao acordar da cidade, encontrar pistas de como será o seu andar, a sua voz que declamava poesia espanhola numa praça de Madrid.
- Francisco, desculpe este meu atraso.
Não olhei o relógio, nem sequer ouvira o tilintar dos sinos, tento colocar a minha voz que se apresente firme:
- Mestre Andrade. Não tem importância.
- Por favor, trata-me por Eugénio.
Estendeu-me uma mão já gasta pelo tempo, no casaco vejo-lhe pêlos de um gato negro.
- Outros valores se ergueram antecipadamente.
- Da sua repartição?
- Que ideia! Um poema que me toldava o pensamento.
- Ainda lhe acontece escrever poemas à pressa?
- A minha idade vem ganhando de forma vertiginosa aos meus dedos. Mas acontece congelar o sonho e revê-lo, horas mais tarde.
- Ainda tem o estigma da folha em branco?
- De todo! Ensombra-me mais a falha de um candeeiro numa noite de grande inspiração.
- Ainda não se rendeu ao computador?
- Já fazem parte do meu dia-a-dia, mas se eu morrer... quem me lerá os pensamentos solitários? Só tenho a lua e um gato como testemunhas.
- A quem dedicaria "Os amantes sem dinheiro"?
- Aos meus fiéis leitores, quando eu ainda não era ninguém.
- A língua tem sal?
- Se não tiver, a conversa para mim torna-se um tormento. Fico-me pelo silêncio.
- Sente-se à vontade para ler o que escreveu com tenra idade?
- Gosto de voltar à minha inocência. Onde tudo era quase perfeito.
- A quem dedicaria um poema grande?
- Sem dúvida, à minha mãe.
- Que outro nome dá a esta terra?
- Se calhar à beleza de um sentimento: Felicidade. Esta cidade faz-me feliz.
- O que é para si um dia feliz?
- Um dia com demonstração verdadeira de afectos e que tenha tempo para saborear a vida a dois.
- Como amantes?
- Não... Aí, será sempre só como amores.
Eugénio de Andrade nasceu como José Fontinhas no Fundão, e completaria hoje cem anos de vida.

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